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Te amo ao círculo
Costumo reservar meu final de noite pro meu filhote, aliás, pra nós dois.
As conversas sempre são ótimas, me dão energia, esperança, paz... As melhores palavras que ouço, sempre saem da boca dele.
Outro dia uma conhecida minha descobriu que estava grávida e se desesperou. Lembrei de mim, grávida, solteira, doida, sem estrutura financeira nem emocional...
Cheguei a não querer aquele filho. Imagina! Como pude ser capaz de não querer a pessoa mais linda, mais fofa, mais massa, mais sincera, mais gostosa, mais preciosa, mais TUDO do mundo?
Me angustiava quando pensava em fraldas, bicos, amamentação, engordar, parir...
Mas Deus (ou a natureza, como quiser) é tão perfeito que dá às mães (e aos pais) nove longos meses pela frente.
Dia a dia, semana a semana, mês a mês fui me acostumando àquela nova situação e me adaptando à maternidade. O processo é lento e gradativo, como tem que ser.
Quando ele nasceu, ser mãe já não era mais aquele bicho de vinte cabeças. Foi difícil, claro, mas tirei de letra, aprendendo sempre. Não fui a primeira e nem serei a última.
A recompensa? Ela vem todos os dias, todas as horas e instantes da minha vida, que começou quando ele nasceu.
E, à noite, quando deito com ele praquela conversinha final, pergunto como foi o seu dia e o que ele aprendeu na escola...
– Letra cursiva mamãe! Responde desenhando seu nome num papel imaginário, com aquele dedinho sujo de tinta guache.
– Não lavou as mãos direito! Resmungo.
Ajudo-o com as orações, que inclui o gato, a tia Karol, a tia Karina, a tia Márcia...
- Todas as tias, né meu filho? Falo, tentando encurtar a prece.
- ... proteja a tartaruga e o ovo da tartaruga também. Amém! Finalizou aquele ser pequenininho de 5 anos.
Trocamos milhões de beijos, e , quando estava quase saindo do quarto eu ouvi, abafado pelas cobertas:
- Mãe, eu te amo muito!
- Eu te amo ao quadrado filho!
- E eu te amo ao círculo mamãe!!
Risos e lágrimas se misturam, se confundem... Mas de felicidade, de alegria, de prazer.
E praquela minha conhecida que está grávida, só tenho a dizer uma coisa:
Permita-se ser feliz!
Que seja ao quadrado, ao círculo, ao retângulo... Não importa! Apenas deixe acontecer...
Escrito por Thais Zimerer às 13h27
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O que os olhos não vêem
Certíssimo esse ditado “O que os olhos não vêem, o coração não sente”. Em determinadas situações, temos a CERTEZA de que não “cairemos em tentação”, que seremos fortes e tocaremos o barco. Seremos mais razão e menos emoção... Não quero mais, não vou mais, não isso, não aquilo...
Tolice! Pelo menos pra mim. Não adianta; meu coração põe minha razão no chinelo, coitadinha...
Inúmeras vezes eu disse que não queira, que não ia, que não sentia...
Tudo vai bem, até o dia em que você sai pra comprar aquele inocente pãozinho e dá de cara com o “problema”. As pernas tremem, o coração dispara, a pressão vai lá pra baixo, suor gelado e boca seca... Os defeitos somem como por encanto, a saudade aumenta e a vontade é tanta, que até dói. Isso mesmo, dói!
Dói saber que o sentimento é mais forte, que é difícil resistir, que já não estão mais juntos (e poderiam) e que o buraco que ficou aumenta cada dia mais.
Então vem um “oi” daqui, um “como vai” dali... Marca-se uma cerveja, juntam-se as cadeiras, olho no olho, boca na boca e o coração traidor dispara novamente... Promessas, compromissos, mudanças, planos...
E começa tudo outra vez...
Escrito por Thais Zimerer às 10h45
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Ratas
Sempre tive péssima memória para nomes e fisionomias e isso já me causou muitos constrangimentos. Tenho fama de “rateira” entre os amigos.
Passei anos fora da minha cidade e acabei perdendo o contato com muita gente.
Numa das minhas visitas, meu reuni num bar com amigos e acabei reencontrando o pai de uma amiga minha que eu não via há muito tempo. Foi super legal! Ele me abraçou forte (até demais), disse que tinha saudades e me convidou pra beber (estranhei). Notei que meus amigos riam de alguma coisa, mas não dei bola.
Depois de alguns minutos de perguntas do tipo “como vai sua vida”, nos abraçamos de novo, mandei recados pra filha dele (minha amiga) e nos despedimos.
No dia seguinte, fui contar à minha mãe:
- Mãe, você não sabe quem eu encontrei ontem!
- Quem?
- O fulano, pai da cicrana...
- Que isso filha? O fulano morreu tem dois anos...
Nossa! Minha cara não caiu no chão, ela quicou! Aí entendi os risos da galera. Que raiva! E ninguém me disse nada...
O pior de tudo é que o falso pai da minha amiga tem problemas mentais (claro né). Até hoje, quando me vê na rua, vem ao meu encontro querendo me abraçar, todo íntimo! (rs)
Depois dessa, fiquei mais atenta, mais ainda dou ratas fenomenais!
Escrito por Thais Zimerer às 10h28
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Comemorando!!
Gente, tô muito feliz! Alguns de meus contos foram publicados no site "Gaveta do autor" e isso é muito gratificante. Agradeço a visita de TODO MUNDO que passa por aqui.
Não deixem de conferir. No link abaixo, clique em "novidades" ou em "prosa", procure na letra "T".
http://gavetadoautor.sites.uol.com.br/
Escrito por Thais Zimerer às 07h53
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Mistério - Parte 7
- Pai, o que aconteceu? O que estou fazendo aqui?
- Não se lembra, seu irresponsável?
- Não, do quê?
Sua mente fervilhava, tinha que pensar em algo...
- Achei você numa casa de programa, completamente bêbado. Como pode fazer isso com sua esposa, uma mulher tão excepcional?!
- Mas não me lembro... Como, como...
- Muito fácil não se lembrar de nada, não é? Desaparece por sete meses e acha que pode chegar assim, com “amnésia”? Vou te ajudar a sair dessa, mas precisamos combinar tudo direitinho, pra sua mulher não desconfiar.
A mentira não ia colar muito, mas Ariella ficaria tão feliz com a volta do marido, que só se preocuparia com os detalhes mais tarde. Isso lhe daria tempo pra pensar em uma desculpa melhor.
O susto ao vê-lo foi tão grande, que o ar lhe faltou e suas mãos ficaram geladas... As pernas tremiam e a visão começou a escurecer, mas manteve-se atenta, acordada!
- O que houve? Onde você estava? Você está bem? Fala alguma coisa!
- Estou bem, fique tranqüila... Vou te explicar tudo, calma!
Sentou-se ao lado do pai com uma xícara de café nas mãos, acalmou-se e começou a explicar o motivo do seu desaparecimento...
- Naquele dia, o Mário me ligou. Ele havia batido o carro na porta de um motel e a Elizabeth não podia ficar sabendo de nada. Então me chamou pra que eu tomasse lugar dele na perícia. Eu fui. Não te disse nada por que sabia que você não me deixaria ir...
Cheguei lá minutos antes da polícia. Fizeram a perícia, resolvemos tudo e fomos embora no meu carro. Fui deixar a garota na casa dela, a pedido dele. Quando cheguei na porta do apartamento, o marido dela chegou e pensou que eu realmente fosse o amante! Só me lembro que ele me bateu com muita força na cabeça. Acordei ontem, num quarto da Santa Casa, lá em trindade. Estava sem documento, sem nada... Liguei pro meu pai e ele foi me buscar...
Por alguns segundos o silêncio reinou, absoluto...
- E você acha que vou cair nessa história absurda Cris? Acha que sou idiota? Vou chamar a polícia!
Imediatamente um alarme soou na sua cabeça. Se a polícia entrasse nesse assunto, estaria perdido!
- Não! – gritou.
Todos olharam pra ele, assustados. Nunca o viram tão nervoso, tão alterado.
(continua...)
Escrito por Thais Zimerer às 13h35
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Mistério - Parte 6
Pouco a pouco a cor foi voltando. Ele pode ver nitidamente os pêlos do corpo se arrepiarem e a respiração voltar devagar.
Estava feliz, o antídoto funcionava! Agora precisava bolar uma maneira de colocar Cristóvão “na ativa” novamente, mas primeiro tinha que se livrar da cobaia.
Revistou os bolsos do rapaz e descobriu seu endereço numa conta de luz. Fácil - pensou.
Colocou-o no carro e foi até o local indicado no papel. Chegando lá, largou-o com cuidado no alpendre, mas não antes de ter certeza de que ninguém o via.
Na volta pra casa, elaborava a melhor forma para seu filho voltar ao lar. A filha do meio era meio tonta, acreditaria em qualquer coisa que contasse, mas seria difícil enganar a nora, ela era muito esperta... Tinha que pensar em algo, e rápido! O tempo era curto...
Voltando ao seu esconderijo, preparou a seringa com o antídoto e aplicou devagar no pé dele, não podia deixar marcas. Teria mais ou menos umas 6 horas pra pensar em algo até que Cris retomasse inteiramente a consciência.
Vou tomar um chá de coca, isso me despertará e com certeza terei uma boa idéia – pensou.
Colocou a água com as folhas pra ferver enquanto enchia a banheira. Precisava tomar um banho, o último foi há 2 dias. Já estava fedendo!
Para sua surpresa, Cris retomou a consciência antes do esperado e estava ali, abobado, com cara de quem não entendia nada...
(continua)
Escrito por Thais Zimerer às 11h00
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Mistério - Parte 5
O antídoto estava pronto, mas precisava ser testado antes... Como o faria? Em quem?
Não precisou pensar muito, pois a solução bateu literalmente à sua porta. Era uma testemunha de Jeová. Bem na hora!
Convidou-o a entrar, demonstrando interesse. Enquanto ouvia o blá, blá, blá religioso, pensava numa maneira de levá-lo ao seu quarto. Foi quando uma pergunta despertou sua atenção:
- O senhor tem uma bíblia?
- Tenho, linda! Venha ver com os seus próprios olhos.
Golpeou-o com o abajur e carregou-o para baixo, puxando pelas pernas.
Como pesava aquele infeliz!
Injetou o veneno na veia do pescoço e ficou observando o efeito naquele corpo.
Por que diabos Cristóvão tinha que aparecer de surpresa daquele jeito? Não podia simplesmente mata-lo como um idiota qualquer. Era pai dos seus netos, seu filho... Ou pelo menos ele gostaria que fosse.
E como gostaria... Como ele queria que tudo fosse diferente..
Foco no resultado homem! Voltou ao corpo; ele já estava sem vida, no ponto.
Aplicou o antídoto e esperou ansioso, rezando para que ele funcionasse...
(Continua)
Escrito por Thais Zimerer às 09h43
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Será?
Morávamos (meu marido e eu) em um barracão alugado, num lote grande onde havia outro barracão e uma casa. Era na zona norte de São Paulo e praticamente só íamos lá para dormir. Aos finais de semana viajávamos pro interior e de segunda a sexta o trabalho tomava todo o nosso dia.
O outro barracão ficou vazio por quase um ano. Numa determinada noite, ouvimos o barulho da mudança. Os móveis eram poucos (acho), pois terminaram rápido e o silêncio voltou.
Por vários dias não vimos ninguém e nem ouvimos sinal de vida dos nossos vizinhos. Estranho... Nenhuma roupa no varal, nenhum cheiro de feijão nem aquele barulhinho da panela de pressão...
Num raríssimo sábado que ficamos em casa, levei um susto ao me deparar com um garoto de aproximadamente 2 anos na minha porta...
Brinquei e conversei com ele normalmente. Pude notar que havia uns arranhões em seu rosto. Indaguei se ele havia caído e onde estava sua mãe. Ele respondeu que não sabia, parecia confuso...
A “mãe” apareceu e pegou-o bruscamente, tentando disfarçar a sua raiva pelo garoto ter saído de casa.
Tentei ser simpática e puxar conversa, mas ela não correspondeu.
Prossegui com minha rotina normalmente, mas a pulga ficou atrás da orelha.
Nesses tempos malucos, onde assistimos barbaridades pela tv, acabamos ficando meio paranóicos... Ou, pelo menos, EU acabei ficando paranóica...
A minha viajem era que o garoto havia sido seqüestrado e ali era o seu cativeiro (propício, por sinal).
Eu e meu marido ríamos dos meus devaneios e brincávamos muito sobre o assunto.
Um dia a vizinha escutou uma dessas conversas, falávamos alto e a casa era colada na nossa... Foi constrangedor, pedimos desculpas, tentamos nos explicar, em vão. Ela amarrou a cara e entrou.
No dia seguinte, quando chegamos do trabalho, eles haviam se mudado. Assim como chegou ela partiu, em silêncio, rápido e sem aviso...
Pra nós ficou só a dúvida: Será? Nunca saberemos...
Escrito por Thais Zimerer às 13h40
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Mistério - Parte 4
Era um mulherão de quase 1,80mt, temperamento forte e coração de ouro. Se pudesse colocaria todas as crianças do mundo debaixo das suas asas.
Pedagoga formada e amante da profissão, deixou o trabalho após o desaparecimento misterioso do marido há seis meses atrás.
Tudo transcorria normalmente (normal demais) até aquele dia... Cristóvão era um pai amoroso, marido fiel e apaixonado por ela. Nunca tinha lhe dado motivo pra suspeitas. O casamento foi como mandava o figurino, com direito a lua de mel na Espanha e tudo (adorava as touradas, aflorava seu lado cruel). Logo veio Izabel, a primeira filha e depois Iúri, o caçula.
Numa manhã de domingo, ele recebeu um telefonema estranho, ficou muito transtornado e saiu dizendo que voltava logo. Não voltou...
Já se passaram quase sete meses e a polícia ainda não descobriu nenhuma pista. Parece que ele simplesmente se desintegrou.
Ela precisava ser forte, tinha os filhos, a casa e o sogro pra tomar conta. Eles dependiam dela, não podia decepcioná-los.
Como ele fazia falta... O que teria acontecido? Estaria vivo ou morto? Por que isso estava acontecendo com ela?
Um telefonema arrancou-lhe de seus pensamentos, subitamente! Era da escola, Izabel estava com febre e era preciso buscá-la. Avisou o sogro pelo interfone, pegou as chaves do carro e saiu.
Lá embaixo, submerso em seu laboratório, ele tentava descobrir o antídoto que curaria Cristóvão e o levaria de volta ao lar, aos filhos, à vida...
(Continua)
Escrito por Thais Zimerer às 09h08
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Mistério
Parte 3
Ela parte hoje, te ligou ontem à noite?
- Sim, fiz como me pediu. Ofereci minha casa e dinheiro, mas ela não aceitou o dinheiro...
É bem minha filha mesmo, independente – pensou
- Ótimo, receba-a no aeroporto e siga o procedimento. Desta vez a estada vai ser curta, três meses talvez...
- Ok
- Aguarde novo telefonema e não se esqueça: Se algo acontecer a ela, mato vc daqui mesmo!
Desligou o celular e foi cuidar do corpo.
Arrancou-lhe todos os dentes, um a um, com prazer.
Aroldo ia adorar o material. Daria um lindo colar – pensou
No rosto e na tatuagem, jogou o ácido de sempre. Colocou-o no saco preto, jogou-o na carroceria da Savero e foi em direção ao lixão da cidade.
Esse aí vai cantar no inferno – rosnou...
Feita a desova, chegou exausto em casa (já não tinha mais idade praquilo, tinha perdido a prática), lavou o rosto e desmaiou na cama.
Amanhã teria que cuidar do outro assunto...
(continua)
Escrito por Thais Zimerer às 08h03
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O mistério - Parte 2
Pegou o interfone ao lado da mesinha de cabeceira e pediu que a empregada levasse um saco de lixo, daqueles pretos, grandes e resistentes.
Seria difícil livrar-se do defunto, teria que fazê-lo de madrugada, quando todos dormissem.
Aquela morte foi a mais difícil, a menos sensata. Matara pro prazer desta vez. O que aquele imbecilzinho achava da vida? Quem ele pensava que era? Não podia ter entrado na vida da filha predileta dele e fazê-la sofrer daquela forma. Um cantor barato, parecendo hippie... Não, ele não merecia sua filha!
A solução foi matá-lo e inventar uma viagem pra ele. Ninguém desconfiaria, o rapaz era um cigano e não dariam por sua falta.
A oportunidade veio por acaso. Estava só e a campainha tocou. Pôde ver pelo monitor que era o “cabra”. Não pensou duas vezes, mandou-o entrar e deu aquela cervejinha especial que guardava para os “amigos”...
Foi rápido e indolor. O corpo nem fez barulho ao cair, pois a poltrona vermelha da sala amorteceu a queda.
Agora estava mais tranqüilo, sua filha nunca mais viria aquele bosta. Ela estava de viagem marcada pro dia seguinte.
Ele precisava ligar para o seu contato na Europa e dar as instruções. Nada podia dar errado. Nem imaginava o que aconteceria se a caçula desconfiasse da armação.
Pegou o telefone e apertou a tecla de discagem rápida. Ao soar do terceiro toque, ouviu a voz do outro lado da linha:
- Sou eu, Miriam. Quais as instruções?
(continua)
Escrito por Thais Zimerer às 10h22
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Mistério
Mistério. Essa seria a melhor palavra para defini-lo.
Tinha mais de 60 anos, cabelos grisalhos e rosto marcado pelo tempo. Sempre foi viciado em trabalho, mas teve que aposentar-se contra a sua vontade . Ordens médicas.
Os três filhos já criados, 2 netos e uma casa enorme que escondia sua verdadeira identidade.
Projetou ele mesmo, cada detalhe. Do telhado ao piso falso.
Sim, existia um piso falso e muito mais segredos do que sua família imaginava. Precisou de mais espaço tempos atrás, mas não tinha como explicar tamanha obra que seria necessária para ampliar seu esconderijo, que servia de escritório e refúgio.
A forma encontrada foi uma piscina. Logo ele, que detestava água. Era traumatizado desde aquele incidente com traficantes de mulheres em Fortaleza (estória pra outro dia).
A família, feliz com o novo objeto de lazer, nunca desconfiou de nada. E assim fez-se a piscina com uma passagem por baixo dela, que levava do seu quarto para o novo espaço embaixo da casa de máquinas.
Nenhum dos três filhos era seu. A piranha com quem teve que se casar às pressas, pois quase fora descoberto na época, engravidou três vezes e ele nem tinha a idéia de quem era o pai. Sabia que não eram dele, pois ficou estéril depois das seções de tortura que sofreu em Berlim.
Foi a saída que ele precisava: Casa, esposa e filhos...
Com o tempo, foi aprendendo a amá-los e a acreditar na mentira que vivia, até que a idade forçou-o a deixar as viagens longas e teve que ficar mais tempo com a “família”.
- Pai, vem nadar. Você nunca entrou nessa piscina... – gritava a filha do meio, tirando-o subitamente de suas lembranças.
- Mais tarde, vou almoçar primeiro! – gritou.
Mal sabia ela que ele detestava áqua. Até banho era um sacrifício. Ela também não sabia que ele conhecia seu segredo e que nada passava desapercebido por aquela mente treinada pra detectar mentiras.
Sabia que mentia pelo tom e vibração da sua voz. Mas não era problema dele. A vida era dela e ele não era a pessoa mais indicada pra recriminá-la. Sentia até um certo orgulho da coragem dela, que podia ter herdado dele, caso fosse realmente sua filha.
E assim ele vivia, escondido nos subterrâneos da mansão que construiu especialmente praquilo.
Já era hora de mudar, escolher outro lugar, outras pessoas pra conviver, menos enfadonhas, mais excitantes...
Mas, pra onde ir e qual desculpa dar? Forjaria sua própria morte? Estariam os “filhos” preparados pra tamanho sofrimento? Mas isso era um problema que resolveria depois. Agora tem que dar um sumiço naquele corpo, pois já começava a cheirar mal e a atrair ratos.
(continua)
Escrito por Thais Zimerer às 12h46
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Príncipe encantado que nada!
Já repararam como as coisas são muito mais fáceis pros príncipes encantados?
A pobre coitada da donzela rala a estória inteirinha... Lava, passa, cozinha, foge de caçadores, come maçã envenenada, enfrenta a bruxa, agüenta irmãs más e madrastas piores ainda... Fingem-se de mortas pro espelho encantado, são guardadas por dragões ou aprisionadas em torres altíssimas... Vestem roupas maltrapilhas, perdem a mãe no começo do livro e ainda se separam do pai tão amado.
No final do martírio, no último parágrafo da última página, vem o folgado do príncipe, beija a moça e ainda vive feliz pra sempre com ela!!
Fácil pra eles, né?
O lobo mau, por exemplo: Aparece desde o começo na estória, corre atrás, faz e acontece... É autêntico, mostra realmente a que veio.
É mau, verdade, mas presente, firme, forte! Deveria levar mais mérito nos contos infantis.. Até por que, tem muito mais lobo mau do que príncipe encantado no mundo né?
Ao meu filho, me resta contar sobre Peter Pan, rapaz de coragem! Apaixonado pela Wendy e com fraquezas reais, humanas... Sente ciúmes dela, se irrita e eles até ficam “de mal” em determinado momento.
Tem também o Hobin Hood, O Flautista de Hamelin, Os Três Mosqueteiros... Heróis de verdade, que fazem por merecer. Diferente do mauricinho do príncipe, que não faz nada o tempo todo, e no final ainda leva a mocinha pro lindo castelo, sentadinho no cavalo branco!
Li em algum lugar certa vez: “Príncipe encantado que nada! Bom mesmo é o lobo mau, que escuta melhor, te vê melhor e ainda te come!”
Acorda Alice!
Escrito por Thais Zimerer às 08h41
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Falta de opção
Adoro comida japonesa.
Quando a grana ta curta e não dá pra ir a um Sushi Bar, procuro um grande supermercado, onde é comum encontrarmos aquelas bandejas de combinados com direito a rachi, molho shoyu e wasabi.
Viajei certa vez pra uma cidade do interior onde as alternativas, digamos, gastronômicas eram bem restritas... Me deu uma vontade enorme de comer sushi, procurei por um delivery na lista telefônica, em vão.
Fui às compras, a pé mesmo, pois a cidade era pequena e um automóvel era totalmente desnecessário.
O único “supermercado” do pacato lugar, tinha uma placa enorme onde se lia:
MERCEARIA DOIS IRMÃOS – De tudo para o seu lar!
“Oba”, pensei! Vou matar o que me mata.
Chegando lá, perguntei:
- Onde fica a gôndola de pescado?
- Onde fica o quê?
- Os pescados... Os peixes!
- Ah... Não temos peixe, mas tem sardinha em lata.
Agradeci e fui embora – detesto sardinha!
Chegando no quarto, a fome apertou e o frigobar estava vazio. Não tinha nem batata frita de saquinho!
Era feriado (dia de São Brás, eu acho) e não tinha mais nada aberto na cidade, só o supermercadinho DOIS IRMÃOS.
Respirei fundo, pensei no meu estômago vazio, roncando horrores, criei coragem e resolvi encarar o enlatado mesmo.
“Quem sabe com uma boa massa e um vinho, o gosto melhore...”
Voltei lá, peguei a sardinha e um pacote de macarrão instantâneo (era isso ou aqueles macarrões furadinhos).
A bebida mais próxima de vinho que eu encontrei foi Chapinha. Optei por coca-cola mesmo e enfrentei a fila enorme do caixa.
A essas alturas a fome já estava gigante e eu já não torcia mais o nariz praquele miojo com sardinha.
Cheguei no chalé, preparei o manjar e comi feito criança, na panela mesmo. Lambi os beiços!
Naquelas circunstâncias, aquilo foi a coisa mais saborosa do mundo!
A vida é foda! Você come e adora sushi, acostuma-se a ele por décadas e abomina sardinha enlatada.
Um belo dia, no fim do mundo, a única coisa que você tem é a danada da sardinha. Nada além da sardinha! Ela passa a ser a melhor refeição naquela hora e naquele lugar.
Depois, você cai na real e descobre que a sardinha não é a melhor comida do mundo, e sim uma puta falta de opção!
Não tem sushi?Vai sardinha mesmo, fazer o quê? Não tem outra opção!
Escrito por Thais Zimerer às 09h43
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